Olga Savary e a poesia erótica

Olga Savary é uma poeta paraense com uma obra vastíssima que se auto-declara casada com o seu trabalho. Depois do término de seu casamento com o cartunista Jaguar, não quis mais saber de casamentos convencionais e casou-se com a poesia e com a literatura. Prima de Carlos Drummond de Andrade e amiga de figuras emblemáticas da literatura brasileira como Hilda Hilst, Raquel de Queirós e Manuel Bandeira, Olga é uma poeta de comunicação forte, o que fez com que o escritor Jorge Amado num determinado momento declarasse que "Olga escreve como um homem", ao que a poeta respondeu que "não escrevo como um homem, escrevo como uma mulher forte". Seu trabalho como tradutora nos rendeu mais de 40 obras de autores hispano-americanos, como Borges, Cortázar, Carlos Fuentes, Lorca, Neruda, Octavio Paz, Jorge Semprún e Mário Vargas Llosa, e também os mestres japoneses do haicai - Bashô, Buson e Issa.

Em entrevista ao jornalista Luiz Lobo declarou a respeito de sua poesia erótica que três coisas são fundamentais na vida: o senso poético, o senso de erotismo e o senso de humor. A seleção de poemas abaixo é apenas uma pequena parte desse universo savaryano e não pretende de maneira alguma enclausurar a obra dessa poeta nas grades de uma única vertente, mas sim fazer um recorte exemplar do livro 'Magma', lançado em 1982, e trazer aos leitores da revista Poesia Avulsa um pouco do como essa poeta se utilizou do erotismo para falar da natureza humana. 

André Merez




mar I

Para ti queria estar sempre
vestida de branco como convém
a deuses tendo na boca o
esperma de tua brava espuma.
Violenta ou lentamente o mar
no seu vai-e-vem pulsante
ordena vagas me lamberem
coxas, seu arremesso me
cravando uma adaga roxa. 



mar II

Amo-te, amor-meu-inimigo, de mim não
tendo piedade alguma. Amo-te, amor
sol-a-pino, feroz, sem nenhuma sombra.
Estás inteiro em mim e vou sozinha.
Ao ver-te, amor, minha sorte ficou como
se diz: marcada. Mar é o nome do meu
macho, meu cavalo e cavaleiro que
arremete, força, chicoteia a fêmea que
ele chama de rainha, areia.

Mar é um macho como não há nenhum.
Mar é um macho como não há igual - e eu
toda água. 



sumidouro

I

Tocas a fímbria dos desfiladeiros, fruindo a cor do
figo e da romã no nascente e secreto sumidouro. É
tarde nas folhas e nos muros, nas sombras do
tanque de lodo e musgo, é tarde já, é noite - e o
sol vem vindo e a primavera vindo onde a água é o
mel feroz de pássaros em tua língua, onde o amor
deságua em delta e tudo é fogo.

II

Direi então: amor é onde o junco alto e as dunas
soam mais brando e os frutos cheiram mais e são
mais doces, onde há embriaguez e a tensão de
corda esticada no limite e tudo é lasso, onde as
abelhas perdem a ferocidade sendo mais mel,
onde tudo é ordem e labirinto.

III

E onde é o sol mesmo na sombra porque tudo
arde na grama quando a língua em chama
sobe a fonte do delta das coxas, onde a vida é
prometida nos dardos, nas setas e espadas. E é
com o mel da tua espuma que se encontra a
arqueologia dessa água intemporal.
Dou a noite a quem merece o dia e é
com sabedoria que me matas no claro
interstício dessa faca.



saturnal

Paraíso é essa boca fendida de romã
— bagos de vida,

paraíso é esse mistério de água ininterrupta
fluindo do terminal das coxas,

é a vulva possuída-possuindo
violáceo cacho de uvas,

é esse dorso de vinho navegável
atocaiado para um crime.



pele

Um favo de mel na boca,
um torrão de sal na anca
roubam para a pele
o calor de animais
simples e vorazes, soltos
como numa catedral,

pele de asno,
pele de mel,
pele de água.



nome

Diria que amor não posso
dar-te de nome, arredia
é o que chamas de posse
à obsessão que te mostra
ao vale das minhas coxas
e maior é o apetite
com que te morde as entranhas
este fruto que se abre
e ele sim é que te come,
que te como por inteiro
mesmo não sendo repasto
o fruto teu que degluto,
que de semente me serve
à poesia.


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Retrato da poeta Olga Savary por Carlos Scliar



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

   

Comentários

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  3. De facto é fenomenal ler a literatura do meu tempo em tempo real

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