Resenha: 'Todas as quedas são livres' de Leandro Rodrigues

Por André Merez


A evocação da figura do Ícaro não poderia ser mais acertada para o poema de abertura do livro “Todas As Quedas São Livres” do poeta Leandro Rodrigues. As asas de cera de mel de abelha são em grande medida as asas desse poeta, ou ainda, de todos os poetas que alimentam o desejo de fugir de Creta. O conselho de Dédalo (o pai) para não voar perto do sol ou perto do mar não poderia jamais ser ouvido por quem aceitou o risco de voar com asas de cera ou por quem tenha aceitado o risco de escrever poesia. Rodrigues sabe e nos sinaliza logo na abertura do livro que não há poesia sem entrega, sem esse risco e sem esse desvario.

Depois de suas asas perdidas, derretidas pelo sol, inicia-se a queda, o voo sem asas e aquilo que o poema precisa dizer ultrapassa a palavra como mero significante e o poeta utiliza a folha em branco como matéria expressiva. Palavras e letras se dispersam pela página, assim como se separam a cera das penas dos pássaros e a armação esquelética das asas derretidas aparece. Tudo isso ocorre dentro dos limites do poema, nada é arbitrário ou acidental, a utilização do recurso visual no poema tem a clara função de amplificar as relações entre significante e significado, e o faz muito bem.

Seguem-se as partes numeradas do poema “O Arco Do Desequilíbrio” ou, como pude perceber em minha leitura, cada uma dessas partes constituiu um poema em si, ao mesmo tempo em que se integram por uma fina e oportuna linha semântica. Essa linha parece sugerir que a queda é um mórbido espetáculo aos olhos daqueles que a desejam, como o termo ‘schadenfreude’ do idioma alemão que parece dar a dimensão exata desse sentimento ou como a imagem do suicida no alto do edifício, prestes a se atirar e a geral parada e esperando os poucos segundos de um gozo às avessas que a visão do corpo caindo proporcionará a eles e depois, só depois, vestirão novamente suas confortáveis máscaras de bons cidadãos e lamentarão comovidos o ocorrido.

Poesia e queda parecem andar juntas, inseparáveis e dialogando. O gosto da queda do Ícaro é também o gosto da queda do poeta “... as páginas de um livro de poemas/ … em queda vertiginosa. Mas é importante deixar muito claro que, quando o poeta diz ‘queda’, ele também diz voo, porque esse vocábulo não deverá ser simplificado em seu sentido inicial, ao contrário, ele aqui é tratado como um ato de libertação, ou seja, antes a liberdade da queda do que a prisão do chão firme e essa talvez seja a chave de leitura que o próprio título do livro sugere.

Em “O Chão De Pedras Meninas” a queda é individualizada como deve ser, sentida pela pedra que se solta das mãos da menina e afunda no rio. Pedra e menina aqui parecem ser uma e a mesma coisa ‘A menina olha o rio / A pedra olha o rio / e os ‘três leves golpes de encanto’ dão ao poema ‘ A menina, o caminho, a pedra e o rio’ um lirismo inesperado, mas muito bem vindo a essa altura da leitura do livro. Ainda aqui as meninas são nomeadas, Leila, Violeta, Isadora e, finalmente ‘A Poeta”, mais uma vez a sensação de cair “...salta /  Póstuma compulsória / Esta noite cai. As quedas diárias do indivíduo aparecem representadas pelos verbos que indicam um movimento descendente. 

Mais adiante, no “Abismo Das Águas” a sensação de vertigem, tão bem conhecida de quem cai, é direcionada ou substituída pelo risco necessário de estar à deriva. Aqui, estar à deriva é igualmente uma forma de liberdade; aquela liberdade da queda do Ícaro, aquela liberdade de quem escreve versos e, agora, a liberdade de um “navio abandonado”. No “soneto das embarcações” … caem portos / desmoronam naus / … perdem a proa e o estar à deriva é mais uma vez a maneira que o poeta encontra para descobrir em si mesmo que “ Os mares em mim são profundos”. 

O poema ‘aracnes’, que serve de abertura para a seção do livro chamada “A Teia Como Rede De Proteção”, lança a possibilidade de subverter a teia (que é supostamente a rede de proteção que ampara a queda) e denunciar sua natureza de armadilha, onde a “presa se debate / sobre os fios da morte / , aquilo que tem a ambiguidade de ser ao mesmo tempo o que se oferece como salvação, porque pode amparar a queda e aquilo que prende, porque é armadilha. 

Em ‘Ponteiros Como Estacas’ inicialmente os poemas parecem buscar a síntese, como em haicais que não são haicais, o que é muito válido porque permite que, um pouco mais adiante, os experimentalismos com a palavra e sua materialidade expressiva sejam novamente acionados. A meu ver destaca-se aí o poema ‘cortes’ que une a síntese do verso preciso e curto à transgressão do entendimento da estrutura do poema apenas como a mera distribuição deste em estrofes, já que elas são cortadas à faca. 

O poema “Noturno” da parte intitulada “O Voo Rasante Da Lua” parece evidenciar o desejo do poeta em, de alguma forma, desvendar a escuridão do poema e acendê-lo. Fazer ver para também poder (ele mesmo) ver. Esse é também um dos ofícios da poesia e do poeta. É necessário tatear a noite, perder-se nela, arriscar-se em sua escuridão e, só então, o poema pode acender, mas não sem antes ter os olhos vendados pela escuridão necessária; tão necessária como a queda.

Finalmente, em “Germinações Dos Desacordes”, o poema “Música” que fecha o livro reafirmando seu intento de compreender as possibilidades de ascendência que todas as quedas guardam em si, Leandro Rodrigues aponta para frente, lá onde o vento é que toca as cordas. O vento cortante contra o rosto de quem cai, de quem se arrisca e, se arriscando, compreende um pouco a necessidade de se deixar em queda livre para experimentar a poesia como instrumento de ascensão, tal como as asas de Ícaro e mesmo que  ambas sejam feitas com cera de abelha.




Detalhe da Capa do livro



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Todas as quedas são livres
Autor: Leandro Rodrigues
Editora: Penalux
Páginas: 98
Ano: 2020
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 A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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