Sara Athouguia com o conto 'Poeta Acidental'

Sara Athouguia é doutoranda em História no Instituto Universitário Europeu. Vive entre Florença e Frankfurt, embora a sua alma seja lisboeta. Com artigos científicos e contos publicados em inglês, Sara acredita, porém, que há muitas histórias dentro de si que só existem em português.



Poeta Acidental


Há na espécie humana um desespero permanente que só encontra alívio na Arte. Foi essa consciência demasiado precoce que me levou a ser professor de Literatura, decidindo seguir um sacerdócio apócrifo para consolar pecadores com a centelha divina que consuma cada palavra. Toda a vida estudei Literatura, promovendo a correção gramatical e a elegância sintática; idolatrando os poetas que faziam da métrica sinfonia; viajando nos mundos imaginados que em tanto superavam o real. E fui professor toda a vida, ainda que a última aula que lecionei tenha ficado perdida nos corredores da minha ignorância, naquele prodigioso outono de 1956.
Nessa aula, que eu não sabia ser a última, decidi recitar um poema aos meus alunos, explicando a importância da forma, mesmo que o conteúdo nos fosse completamente alheio. Digo-o porque o poema denotava um requintado jogo de sons, ainda que eu não entendesse uma única palavra. Pertenço a uma geração de húngaros que não se viu obrigada a aprender o idioma do libertador ou do invasor (como a vossa consciência ideológica lhes preferir chamar, uma vez que eu, servo monoteísta da Literatura, nunca fui obediente às normas nominativas da política). Jamais aprendi russo porque era apenas um professor, não tinha talento para soldado, muito menos para político ou revolucionário. 
Os meus alunos, talvez politicamente mais conscientes e certamente mais ignorantes quanto à beleza canora da poesia, detestaram aqueles versos tão fervorosamente como se as palavras personificassem o inimigo, o opressor, o outro… Ninguém sabia, nem eu próprio, que aquele poema me salvaria a vida. Poderia deter-me em perífrases engenhosas ou em metáforas cuidadosamente esculpidas, porém, o cansaço leva-me à crueza de uma verdade sem ornamentos atenuantes: aquele poema salvou-me a vida, de forma tão improvável como a trajetória de uma bala ser desviada miraculosamente do seu curso, em pleno pelotão de fuzilamento. A imagética talvez seja dramática, mas os acontecimentos que decorreram em Budapeste entre o final de outubro e o início de novembro de 1956 também o foram. 
Nesses dias, parecia que o futuro estava prestes a começar. A brisa cortante contrastava com o calor apaixonado da multidão que anunciava que os húngaros não mais se subjugariam — as pessoas saíram à rua, derrubando a estátua de Estaline enquanto rasgavam o símbolo comunista da bandeira e em coro declamavam os versos dos poetas calados! 
Ao deparar-me com uma sala de aula vazia, eu, enquanto professor, não fiquei tão otimista. A sala de aula (aquele altar que eu, de forma tão devota e zelosa, erguera à Palavra) estava vazia e eu sabia que assim podia continuar quando aqueles dias tumultuosos fossem dizimados. Pousei a pasta e contemplei o abismo daquele silêncio, revendo no vazio todos os rostos que conhecia, recordando naquela aflitiva quietude todas as questões que aqueles jovens sedentos de futuro me colocaram e perguntei a mim mesmo: “pois o que é um professor sem alunos?”. E, então, o silêncio foi deposto pelo coro inconformado que invadia as margens do Danúbio, entoando cânticos de esperança e fazendo promessas de liberdade. Soube que devia juntar-me àquelas vozes, não por ser revolucionário, mas por ser professor. 
Os tanques soviéticos não tardaram — irromperam do nevoeiro, limitaram-se a chegar, com autoridade de anfitrião. Resistimos-lhes com a insensatez que está reservada aos desesperados e aos sonhadores e perdemos. Mais, perdemos com a má vontade de um suicida relutante. 
O caos instalou-se em Budapeste sem aviso, tendo como companhia o medo. Ainda antes do nascer do sol, pedidos de ajuda circularam via rádio para o ocidente, denunciando o ataque soviético — em vão, uma vez que ficámos sozinhos, qual David contra Golias! O auxílio das excelsas democracias ocidentais nunca chegou e o novo dia que nascia de um sol frio e hesitante marcou a derrota definitiva, que nos concedeu o indesejado título de contrarrevolucionários.
A morte veio, então, ao meu encontro: não apareceu na figura esquelética de manto preto apoiada numa gadanha, mas sim, sob a forma de homens fardados. Empurraram-me (a mim e a mais uns quantos aos quais faltou rapidez ou esperteza na fuga) contra uma parede, na confiante violência de quem empunha uma arma, enquanto vociferavam ásperas palavras, que me resultaram incompreensíveis. A cacofonia de ordens, prantos, gritos e súplicas ensurdecia, mas foi o frio do medo que me queimou a esperança. Não pude reagir, porque sabia que nada seria suficiente para me consolar daquele destino. O medo enfrentou-me do negrume do cano da arma que me era apontada; uma escuridão tão assustadora quanto benevolente. 
Fechei os olhos e, em vez de rezar a um deus que toda a vida me tinha sido desconhecido, recitei os versos do poeta russo, que não sabia até ao momento terem ficado gravados na minha memória. O conforto da poesia preparou-me para a morte, mas eu já nem sabia se estava vivo. Abri os olhos e, só nesse momento, senti as lágrimas acariciarem-me na ignorante alegria da vida. Em vez do cano da arma, encarei o soldado. O espanto corroeu momentaneamente o ódio: nos olhos do outro, nos olhos do meu inimigo, nos olhos do invasor do meu país também havia lágrimas, ainda que estas jamais se libertassem. O soldado desviou a arma e, com a delicadeza de um filho para com o pai já ancião, ajudou-me a levantar. Falou-me solenemente em russo e depois anunciou algo aos seus camaradas, que os fez olhar-me com aprovação e respeito. Compreendi que tinha permissão para viver, embora já não soubesse o que fazer com a minha vida. 
— Este homem é poeta, deixemo-lo ir! — Foi esta a digníssima absolvição que o soldado me concedeu, por não ter reconhecido o poema que eu declamara com o ardor de um condenado. 
Esta história poderia resumir a minha vida, que ficou irreversivelmente ligada àquele poema e ao dia em que ele passou a ser meu. Aqueles versos deram-me vida e, por isso, aquelas palavras também são minhas. São tão minhas como do poeta que inadvertidamente me salvou ou do soldado cujo misericordioso desconhecimento me poupou. É que as palavras são uma divindade ainda por descobrir: todas elas, até mesmo as que ficaram por dizer, ditam os nossos destinos. 



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A contista Sara Athouguia


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

Comentários

  1. Conto Maravilhoso. Parabéns à escritora e à Poesia avulsa.

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    1. Muito obrigado pela visita e pelo comentário, angy! Seja bem vinda a nossa revista!

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