Sebastião Alba: 'um poeta não se pega'

Algumas poucas palavras sobre Sebastião Alba
Por André Merez


Nas palavras do poeta José Craveirinha, a poesia de Sebastião Alba é a obra de ‘um dos grandiosos deuses humildes da palavra”, o que bem define a impressão que se tem logo ao primeiro contato com seus versos. Alba me parece um daqueles artistas, a exemplo de Van Gogh, cuja obra é construída em detrimento do corpo e da alma. Considero que a obra de Van Gogh não poderia ser o que é, se Van Gogh não tivesse sido a pessoa visceral que foi. O mesmo se aplica à Alba. Poeta e obra se misturam porque há uma entrega, como poucas, aos abismos todos que se encontram às margens da criação, lá onde raríssimos artistas ousam habitar. 

Em dois curta-metragens de caráter documental realizados por Francisco Weyl em 1999, um ano antes da morte do poeta, ao ser indagado sobre ‘como se pega um poeta’, Alba responde: “um poeta não se pega”. E heis o que bem define essa personalidade livre e completamente entregue ao total desapego dos méritos que, na maior parte das vezes, servem apenas para satisfazer os egos, mas não dão conta de construir uma obra como a que Alba construiu. É nisso que reside sua grandiosidade, na capacidade de compreender a inutilidade das glórias segundo os padrões estabelecidos pelos cânones dos literatos.

O risco de limitar sua atuação como poeta à ideia de artista maldito, amargurado e alcoólatra, afasta uma compreensão mais completa do que realmente sua produção representa para a poesia em Língua Portuguesa. Sua intimidade com as palavras e sua capacidade de fazer versos com o que não tenha algum feitio poético anterior, lembra a compreensão de Paul Klee sobre a arte quando afirma que “a arte consiste em criar o que não existe” e é assim que o poeta de Braga constrói suas imagens poéticas. Lá onde o que não existe tem autorização de ser, porque não há nenhuma preocupação em atender a modelos oficialmente aceitos pelos literatos que jamais sequer se aproximaram dos abismos que o poeta conhecia intimamente.

Dar a saber que o poeta teve uma vida conturbada e que passou os seus últimos anos vivendo, por opção, como um morador de rua, talvez seja necessário para uma compreensão maior dessa relação entre o que escreveu e como viveu. Contudo, até onde pude perceber com as leituras que fiz de seus poemas, esta não deve ser a prerrogativa de onde deve-se partir para chegar até sua obra da forma correta. Trata-se apenas de uma parte do estudo desse poeta e, de forma alguma, pode dar conta da compreensão da força de sua poesia. É mais que isso. Certamente.

Depois de mais de vinte anos de sua morte, o que se tem sobre sua obra, sua fortuna crítica e uma reunião adequada de suas poesias completas é muito incipiente, pelo menos aqui no Brasil e creio que também em Portugal. Sabe-se que publicou ainda em vida os livros  Poesias,1965 - Quelimane; O Ritmo do Presságio, 1974 - Maputo; O Ritmo do Presságio, 1981 - Lisboa; A Noite Dividida 1982 - Lisboa; A Noite Dividida (O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), 1996 - Lisboa e depois de sua morte publicaram-se as obras Albas, 2003 (cartas, poemas e rascunhos) e Ventos da Minha Alma, 2008 (coletânea de escritos dispersos, em prosa). 


O limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


Gosto dos amigos

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


Epílogo

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.



A palhota

Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.



Último poema
(ao Jorge Viegas)

Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?

De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?

É ou não o último voo
bíblico da pomba?

Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.



Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.



As mãos

Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.



Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.



...


Os retratos confiam-nos
as memórias dos mortos
Estremam delindo-o
o corpo da amada
e são na velha casa
que num lugar da montanha
dura sobre as estrelas
o que melhor e mais espertamente
qualifica a angústia

[“O Álbum nos Joelhos”, 1974, p.69]


...


Sob a revoada dos mortos, afixei
nas esquinas posters com o meu debuxo
do mundo que há-de vir.

Que vossos modos de ser, vestidos, cabides,
apenas se alcem quando,
ao longo das idades, me saudeis…

Hipóstases do mesmo deus quedam
em sua essência - caduco e dourado, lego-lhes
minhas memórias terrestres.

[A Noite Dividida, Maputo, 1982, p.67]


Aparição

Não foi a Senhora de Fátima que me apareceu, como aos pastorinhos. Mas a Literatura. Escritor, ajoelhei, logo.“Que diabo andam os teus amigos aqui a fazer? Artigos, cartas, reuniões, colóquios? Mas eu tenho alguma coisa a ver com isso? O meu domínio é o da obscuridade. Sempre que um de vós se levanta, com as luzes da sala todas acesas, para falar de mim, eu faço por conversar com a empregada, lá atrás, porque depois, tenho que ajudá-la a varrer aquilo.”

[in Albas, Quasi Edições, organização, introdução e notas de Maria de Santa Cruz, 2003, pg 79]



Memórias do cárcere: fábula

Hoje de manhã apareceram-me lá dois agentes da GNR, graduados. Um deles falava; outro ia tomando notas. Sugeriram que eu fosse para a Assistência Social, ali estria bem, eles conseguiriam isso.

Imaginas-me numa sala a ouvir velhos (os que falam, que os outros babam-se) à espera do almoço?

Passei quase toda a minha vida por universos concentracionários: o internato do colégio Luís de Camões, na Beira, em Moçambique; a Casa de Reclusão que significa “prisão militar”; hospícios, o de S. João de Deus em Barcelos; o de Miguel Bombarda, em Lisboa.

Os agentes disseram-me que voltavam para me persuadir.

À saída digo-lhes: encostem a porta, por favor”.

De repente, ocorreu-me uma fábula de Esopo (grego que foi traduzido pelo fabulista francês La Fontaine) e chegou até nós por Bocage. Um lobo passa, com as costelas salientes, nos flancos, por um cão de pêlo muito luzidio. Diz-lhe o cão: “Tu escusas disso, pá!” O lobo ouvia. “tenho ali a casota para me abrigar da chuva; refeições e as festas dos filhos da casa que gostam de mim.”

O lobo reparou numa depressão que havia à volta do pescoço desse cão, no pêlo.

“Que é isso, pá?”

“É da coleira…”

“ora, ora…”


[in Albas, Quasi Edições, organização, introdução e notas de Maria de Santa Cruz, 2003, pág 74]



Concerto para assobio

Estive hoje a falar com um senhor muito magro que escreveu duas obras-primas da música Ibérica (e mundial); bateu-se também pelo poeta Garcia Lorca, mas não conseguiu salvá-lo.
Eu divaguei sobre o “Amor Bruxo”, “O Chapéu de três bicos”. Assobiei-lhe, até, a sua famosa “Dança ritual do fogo”. Era Falla, claro.
Ele, apoiado ao castão da bengala, ouvia-me.
Então queixei-me de ti: Manuel, receberam-me hoje como se eu fosse um animal bravio.”
Sabes o que ele me disse?
“Nunca más oirás, al pensar en ella, música mia. Me encarrego de eso. Me cago en la leche de su madre.” Assim mesmo.

[in Albas, Quasi Edições, organização, introdução e notas de Maria de Santa Cruz, 2003, pg 153]


Buenadicha: estrela da manhã

Hoje o meu amigo cigano leu-me a sina:

Ele: “Já sobreviste a dois desastres”.

Eu: “Diz lá quais; deixa-te de tretas”.

E ele, sem interrupção: “O primeiro foi a saga (como dizem os vossos literatos) daquele povo de Moçambique, nos últimos 16 anos; arre! O segundo, a (des)integração da tua família numa sociedade consumista de retardatários”.

“Continua” pedi-lhe, já assustado, “haverá algum outro iminente?”

“Há, Dinis”, e os olhos dele toldavam-se porque é, de facto, meu amigo.

Quando lhe citei dois versos de um grande poeta

“Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a Estrela da Manhã”,

ele sacudiu a cabeça, consternado.

[in Albas, Quasi Edições, organização, introdução e notas de Maria de Santa Cruz, 2003, pg 50]



1: Últimos versos do poema “Estrela da Manhã”, de Manuel Bandeira, que inaugura o livro com o mesmo nome, publicado pela primeira vez em 1936, edição do Autor, com uma tiragem de apenas 47 exemplares (o papel não dera para mais…) e, no ano seguinte, em Poesias Reunidas, também ed. do A. Poesia Completa & Prosa, Rio, Aguilar. (N.E.)

2: Os trechos em prosa e a seleção de textos da última parte desta mostra de Sebastião Alba, retiradas do livro 'Albas' da Quasi edições, foram contribuição da poeta Marina Tadeu. 

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O poeta Sebastião Alba

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 




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