Thassio Ferreira: drosera roraimae e mais

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016), Itinerários (Ed. UFPR, 2018) e agora depois) (Autografia, 2019 — selo Bem-Te-Li). Foi editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. e tem poemas e contos publicados em  Escamandro , Gueto, Mallarmargens, Germina, Ruído Manifesto e Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras. Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito “Cartografias”, finalista do Prêmio Sesc. 





drosera roraimae

nascer da pedra
e da pedra florir.
do quando a pedra queima
aconchegar-se em calor de mãe
colo de sol
carinho da luz.
e quando se molha a rocha
lamber sua fria pele dura
feito fosse maná
trazido nos lábios da chuva.

resistir
na pedra
à pedra 
em si

e do eco de seus nãos
extrair
de cada grão mineral
cada rebate do vento
o sorrir
o porvir
o seguir.

da greta da pedra
(hiato de lâminas)
árida
mesmo se
úmida
mais que brotar
mais que surgir
mais que vingar
a flor se abisma.

todo existir
é vencer a pedra
em precipício.



poema para Eliane Brum

Leio em Eliane:
O sobressalto encar-
nou-se nos dias.

E assim quase
sem querer
o poema pronto
se anuncia.


(sem título)

quando a dor te salgar os dias
com suas mãos de relógio e pedra
disfarçando gestos de surdez

senta à beira do poema
faz da palavra tua sombra
salga a dor na própria dor
e canta (mesmo que não
te escutem nenhumas mãos).



teste psicotécnipoético


No cabeçalho
os dados básicos
ou número
de identificação
se o formulário
for anônimo
–– o que melhor aprouver
aos entendedores

(embora meu íntimo
rigor poete
em voz desbesta
d'inentendenções
que deva ser
um pseudônimo)

começamos:

1 - Sabemos que ouve vozes. Diga-nos a primeira coisa que ouvir como voz em sua cabeça
agora:
(escreva aqui ou grite
sua parte do poema)

2 - Faça uma rima.

3 - As pássaros está errante
(sem dúvida razoável)?
Por que?
–– e feito fresta
nessa maquete
de armar-se poema
eu, humilde voz
a sugerir o indizível
vos digo o gabarito
deste quesito:
poetar sobre os inexistência
das errado
poetar sobre o liberdades
da pássaros
disconcordar, disconcordares
disconcorvíreis
inventar que não há porquês
(o que é desinventada verdade
de tão plenóbvia)
ou simplesmente chorar
frente ao papel
pela dor das pássaros
e formulários
com nitidenta ternurância.

4 - Simplesmente sorria.

5 - Qual seu maior medo? Não vale cobra. Porque não.

6 - nabigolek inhemudá?
7 - Desenhe o amor:

8 -
Desleia todas as questões anteriores
e minta qual delas
foi a mais
enervácea.

9 -
Acalmelente-se.

10 - O teste não tem fim...
Psicotecnopoeme (-se




poemas do livro “agora (depois)” (Autografia, 2019 — selo Bem-Te-Li)


retrato

tu: ainda tão novo
já lâmina aguçada
(cega também: ao tempo
que vem depois do talho)
prenhe de tanta dor
que dentro de teus dedos
borbulha e se condensa
ávida por tornar-se
: enchente



manual para cachoeiras

acostumar os pés
palmilhar as pedras
com cuidado
muito cuidado
atentar para aranhas

(acima de tudo evitar
escorregar e bater a cabeça:
é muito inconveniente
morrer no rolê)

entrar de frente
recebendo a peito
rosto e boca abertos
as águas geladas
e só então te virares:
deixar a correnteza
lavar da tua pele
das tuas mãos
o amor extinto
que trazes ainda
entranhado em
tuas ranhuras
feito sangue seco

(nós, que amamos
demais
sempre trazemos
sangue seco
–– além do fresco ––
nas mãos)



cumprido o amor

cumprido o amor
maré que encheu
e vazou
expondo ao vento tantos
troncos podres —
e passado o ódio
em seu zumbido
de ressaca

ficará
na areia:

nada

a não ser
pegadas amorfas

(lembranças de quem
não somos mais)



o amor afogado

a mudez de aquário
dos passos parados
que marco e apago
na carne dos dias
no horizonte
sem onde
em que sequer
me embalo
desaprumado —
engordando
meu quarto
de saudades tuas

apaga as chagas
que a tua presença
petrificava
em meus lábios:

a dor de calar
o amor afogado
com que hoje me abraço

é menor que o cansaço
de nadar em tuas águas
sempre contracorrente
(sempre sempre sempre)

: desamparado náufrago




o amor cumprindo-se

o amor foi-se lavando nos banhos
foi-se perdendo nas células mortas
que deixávamos no sofá, nas roupas
na cama.
foi sendo varrido nas pontas dos cabelos
que eram apenas raízes quando
tudo era luz.

o amor vivia tão à flor da pele
de nossos corpos descuidados
que era muito fácil perdê-lo
na escovação dos dentes
nas unhas aparadas
impregnadas do amor
que arranhávamos um do outro
no esperma derramado.

o amor existia
coisa viva
cumprindo a sina
de tudo que é vivo:

morrer um dia.



poemas inéditos 



obserconstrução

observar com cuidado
as onças pretas
e as pintadas
limpar dos espaços
do olhar
tudo que não onça
com aquela ansiosa
atenção da busca

científica ou
artística ou
puramente curiosa

construir as onças
no tempo
(dos olhos
dos movimentos
dos bichos
em si)

com paciência
como quem
escreve um poema



(sem título)

existem várias causas
e talvez diversas
substantivações
do que seja
amor

, mas a matéria
pulsante entranhada
em transbordâncias
do que se intui ser
amar

(de verdade na ferida
aberta que é o tempo)

é flor que luta
dói e sangra
na ponta dos dedos

: cuidado



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poemas do livro Itinerários (Ed. UFPR, 2018), disponível para download gratuito 
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O poeta Thassio Ferreira

A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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