COLUNA AVULSA: Um flautim insolúvel

Por André Merez

Ter duas mãos e um corpo, essa possibilidade de impossibilidades amplifica uma sensação de impotência que nos congela agora. É bem possível que uma ruptura institucional se confirme nos próximos meses, ou nos próximos anos. Estamos em uma espécie de estado de dormência, dentro de um preâmbulo de Estado de Exceção. E mesmo o que nos parece uma sentença, também se coloca como uma razão muito forte para ter pelo o que lutar. Talvez sejam estes os desafios da nossa geração: lutar contra o fascismo, contrapor a barbárie e insistir em manter viva a capacidade de imaginação. Imaginar é o que nós temos agora, é o que nos sobrou e é o que deve nos manter vivos, mesmo que isso não seja garantia de continuarmos vivos.

Há uma força hedionda vinda lá dos porões da ditadura, uma guerra cultural que quer transformar o país inteiro nisto que o cercadinho do palácio do planalto é o sumo. O que há bem pouco tempo era uma possibilidade risível, um bando de malucos que pediam a volta da ditadura, torna-se afinal um terço dos brasileiros. O que era uma figura patética vomitando absurdos na câmara, agora é a representação política do chefe maior da nação. Esse é o cenário e dentro dele tudo é possível. Como foi dito, não se trata mais de se essa ruptura vai acontecer, mas de quando ela vai acontecer.

A capacidade de imaginação é o que eles querem nos roubar. Imaginemos, portanto. Imaginemos muito e sempre. Mundos futuros, obras possíveis, encontros não marcados, dias adiados que voltam, a força da palavra repensada como coisa, como desvendamento, uma infância que dure até o fim da vida, uma cidade humanizada, delicadeza, pedidos de desculpas, olhos que podem ver, ouvidos que podem ouvir e, principalmente, calma, essa calma contemplativa, algum silêncio, música boa, poesia boa, comida e bebida boas e sem falta pra ninguém. É necessário imaginar. Não que isso seja ilusão de velamento, mas combustível para os motores da resistência, sopro para os pulmões, água para a sede.

É a esperança que se perde esse fim em si mesmo? Talvez. Mas há ainda um ‘entretanto’ e o flautim insolúvel tocando na última estrofe do poema do Drummond. Gritamos sim ao eterno e seguimos imaginando.


Soneto da perdida esperança

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

(Carlos Drummond de Andrade)

André Merez é poeta, editor desta revista e escreve esta coluna todas às quintas-feiras.
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Portinari, Cândido - Flautista - Grafite s/ papel - 36 x 25 cm - 1933. Registrado do Projeto Portinari,


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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