"Uma nova declaração de amor" um conto de Adriano B. Espíndola Santos


Hannelore Baron - Collage 1946



Uma nova declaração de amor


Nunca tive tato para melodramas. Desculpe, amada leitora, que dedica um pouquinho de seu tempo para isto; mas devo começar a prosa assim, sendo franca, para delimitar os espaços.

Fazia anos que não ia ao meu lugar de origem: Aljacira do Norte, distrito de Taquará, no estado do Maranhão. Para não provocar questionamentos inócuos, adianto que não tem nada a ver com a televisão do Oriente Médio – digo isso porque já ouvi piadas grotescas, sem sentido; deu-se o nome, segundo meu pai, em homenagem à primeira moradora ilustre, esposa de um senhor de terras da época colonial, dono de quase tudo ali. Outros diziam que teria relação com a cidade portuária da Espanha, Algeciras, por supostamente termos raízes espanholas; entretanto, essa opção é fantasiosa demais.

Perdi muito tempo conjeturando, procurando explicações vãs para o nome, quando criança; e isso era, na verdade, divertimento, pois que dizíamos que a famosa senhora era filha de Aldair com Jacira, ou Albanir com Jacira, essas combinações comuns na região.

Não tinha a menor vontade de voltar, já que partira errante, para o Sul do país, em busca de recursos financeiros e educacionais. Nada me prendia à aludida terra; até me recordar de Noêmia, por uma ligação tarde da noite, de número desconhecido: “Alô, Noelia, é Noêmia, filha de seu tio Demétrio; tudo bem?”. Podia ter simplesmente rejeitado a ligação, como o fiz dezenas de vezes, revoltada com as empresas de telefonia oferecendo, descaradas, formas de “caçar níquel”. Não consegui, por algum motivo superior.

Nesse primeiro contato, tendo visto Noêmia poucas vezes – até me despedir quando ela tinha cinco anos de idade –, fiquei desconfiada, achando que era trote, ou algo do tipo; ou seja, não interagi muito. Mas as conversas se repetiram, no começo espaçadas, passando a serem praticamente diárias, “porque eu seria sua única ente viva; porque teríamos o mesmo sangue; porque ela me amava sem me conhecer”. Exagero, que gerou certa aversão.

Noêmia insistia. Fui vendo que era uma pessoa boa, pelo menos; entrei no bonde. Ríamos com as histórias de tio Demétrio e do papai, seu Norberto, irmãos de sangue e de fé. Havia umas que nem conhecia, como a do dia em que papai se atracou numa mula e decidiu conhecer os confins do distrito e, já distante duas léguas, percebeu um remexido, que vinha da bolsa de couro carregada no lombo do bicho, com uns tantos de iguarias para vender; era o pequenino irmão Demétrio, pálido, quase sem fôlego, que se escondeu porque achava que o irmão fosse embora de vez.

Mamãe morreu quando eu tinha três anos. Papai, depois de muita teima, resolveu vir morar comigo; passou seus últimos vinte anos sendo acarinhado, dia e noite. Queixava-se do dengo em demasia, dizia que era doce que repugnava. Foram, quiçá, os melhores dias de minha vida. Morreu que nem passarinho, nesse imenso Rio que o (nos) acolheu; que o iluminou e que o conduziu aos céus.

Mas Noêmia queria falar de algo mais importante: tio Demétrio. Arrodeava demais, era tanto que perdi a paciência: “Ô Noêmia, desembucha logo; o que tu queres dizer?”. Contou que titio estava mal, convalescendo, que mal podia andar, e que seu último pedido – por isso teria revirado o mundo para me achar, segundo ela – era me encontrar, me dar um “abraço arrochado”.

Como estava de recesso do trabalho, e tenho o costume de deixar as coisas encaminhadas, me despachei para o Maranhão, no dia seguinte, bem cedo. De São Luís, rodei mais seis horas de ônibus até chegar à bendita Aljacira do Norte. Noêmia me esperava na estação. Olhamo-nos por cinco minutos. Eu, arrebatada por sua beleza; ela, decerto, pelo espanto, por ver uma mulher tão diferente, completa de argolas, tatuagens e afins.

Levou-me em seu carro para a pousada, muito aconchegante, com vista para o mar. Descemos, batemos um papo descontraído, por cerca de uma hora – Noêmia não dava mais sinais de confusão. Estávamos leves, depois de duas cervejas, até que me chamou à “obrigação”, para irmos à casa de tio Demétrio, mais alguns quilômetros, distante do centro.

Noêmia me agradecia e não sabia onde me botar, que eu teria vindo muito depressa; que não sabia do meu querer por tio Demétrio; que estava encantada com a minha figura – foram essas as suas palavras, que me ligaram o alerta.

Na casinha simples, puseram-me na cadeira mais confortável, que, de pronto, perguntei se não seria incômodo, se não estava no trono do rei, brincando. Todas riram, Noêmia e Leocácia, a atual mulher de meu tio, que não conhecia. O homem veio aparado, com os desvelos da filha única, como eu – outro alerta ligado, parece que o velho queria imitar o irmão até nisso; inclusive no nome da filha, muito semelhante ao meu. Peguei em seu bracinho fino, com muito cuidado, e lhe deu um beijo na mão. A vantagem, maldosamente pensei, de o velho ser cego é que não teria o desgosto de ver a minha imagem controvertida.

Ele contava, quase sem tomar fôlego, mesmo que compassado, os causos vividos com o irmão, e que sentia muito não ter ido ao seu enterro; e que, se tivesse dinheiro, teria ido morar lá pras bandas do Rio, perto de seu amor maior.

No dia seguinte, contando com a minha chegada, o velho Demétrio morreu, qual um passarinho. Repetiu a sina do irmão. Não houve desespero, tudo transcorreu como tinha de ser, na mais completa calmaria, repleto de amor.

Agora, dois anos depois, sento-me para tentar decifrar essa linda história, com Noêmia na poltrona assistindo à tevê, despreocupada. Fato é que, depois que nos reencontramos, não nos largamos mais; unidas pelo sangue e pela fé no amor.








Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Acrobata, Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Poesia Avulsa, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.





A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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