Aline Cardoso: 'Euríale' e outros poemas

Aline Cardoso é graduada em Letras e mestre em Linguística na área de Análise do Discurso
pela UFPB; mãe da Marina e autora do livro 'A proporção áurea do caos'. Organiza o Sarau
Selváticas, além de ser uma das fundadoras do Zine Coletivo Sagaz, fundou a Editora Triluna,
visando a publicação de mulheres, principalmente negras. Seu segundo livro, 'Harpia', será
publicado ainda em 2020 pela própria Triluna.




EURÍALE

Caí em águas negras
Ontem à noite,
Átrio aço maciço
Penetrando o breu.

Bestas bioluminescentes
Precipitavam-se ronceiras
Farejando os nós
Entre meus seios.

Miose,
Petrifiquei papilas e ardis
Avioletando a carne
Densa de cada lábio.

Euríale, transmutei a morte
Em meu chocalho dourado,
Circunscrevi muitos nomes
Em minhas escamas.



MOIRAS

As moiras vêm à noite,
Montando frísios
Carregam víboras,
Anéis de prata,
Um olho e três destinos.
Coloquem as chaves
Nas fechaduras.



FÊNIX

A urgência corrói
Minhas asas,
Pássaro em cinzas,
Reviverei
Em voo limpo

Peito de céu aberto,
Tenho feridas
Ressequidas
Pela fúria com que
Enfrento os dias



HERA

Vim de outras eras
Erva-daninha-brava,
Urtiga-vermelha,
Saliva sumo de
Comigo-ninguém-pode.



RÉQUIEM

Um corvo
Cantará no dia do nosso
Casamento
Uniremos carne e vida
Ao grito prometeico
De quem diz estar
Para sempre atado.
Fígado exposto
Feridas abertas
Vertendo o rubro
Amor de quem se dá
Cru à presa.



VOZ

Telúrica-antropofágica
Acherontia atropos
Em voo psíquico-onírico
Mariposa posta
Em teus lábios.



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A poeta Aline Cardoso


A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 

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