Francisco Gomes à flor da carne

Francisco Gomes (Campo Maior–PI, 1982). Vive em Teresina–PI. É poeta e músico. Autor do CD “Diafragma – Poemas em áudio” (formato físico, 2018; formato digital, 2020). Além de obras inéditas e em construção, publicou 4 livros, entre eles: Poemas Cuaze Sobre Poezias (FCMC, 2011) — 1º lugar na categoria Poesia do Concurso Literário Novos Autores/2008, através da Prefeitura de Teresina — e O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado (Multifoco, 2018). Edita o blog Pulso Poesia. Tem poemas em revistas, antologias, sites etc. Dedica-se cotidiana e arduamente à poesia, num trabalho de pesquisa, leitura, contemplação e escrita.



Legado

O mundo em seu caos harmônico
continuará vivo pulsando futuro
e o desespero ao alcançar o toque
já não suspirará nem agredirá
a vontade voluntária do autoisolamento.

O mundo em seu amanhã tão esperado
irá expor as faces devastadas
: resquícios mútuos de medo
  ainda nos acompanharão de mãos dadas
  mesmo na certeza do não uso obrigatório
  de máscaras descartáveis ou personalizadas.

Talvez Migliaccio pensasse num mundo diferente
do mundo que pensaria Michael McClure.
Talvez não.

Penso
num mundo de possíveis continuidades
onde utopias continuarão utópicas
sonhos permanecerão intactos
e a tristeza estará estampada nos rostos
dos desempregados, desamparados, órfãos.

A Humanidade continuará Vitruviana
: sentimentos à flor da carne
  esperança que não morre
  resistência que nunca acaba.



Espírito de urgência no entardecer da madrugada precoce

Minha geração
corria com o vento vultuoso
no lamento do chiado choroso da chuva
                                              agonizante
: à cólera dos andrajos reminiscentes
  conclamava ruínas ao horizonte...

Minha geração infértil
                  extinguível
                    infiltrável
desnorteia em fragmentos
indefesos corações embalsamados
enquanto
pupilas acesas, atentas
                     em prece
percorrem a oblíqua chama xamanística da vela indefesa.

Oh, minha geração!
Espírito descarnado descalço
no frio do azulejo do âmago — perene arte
                                                 em desamar,
nem jasmim
nem ameno tempo campestre
nem fragrância qualquer-que-seja
podem
aveludar, sinestesiar
os cinco órgãos do sentir.

Ah, minha geração — descansa no presente
fornicando com o futuro —,
os olhos voltados para dentro
não param o tempo no entardecer do corpo;
só eternizam a urgência efêmera
da poeirenta lápide precoce
na madrugada das costas.



Esboço repentino do sentir aleatório 

Paralelo ao que rodeia meu ritmo habitual 
ensandecido 
com Creta sob os pés — léguas descarnadas, 
dou as costas ao Letes 
num grito de Giorgos Seféris. 

Penso na fuga repentina 
                       em cavalos apocalípticos 
                       em peixes e pães repartidos... 

Não há alegoria autêntica 
                          no Amor coletivo 
: o frio obscuro tateia a imagem 
                          de Narciso trincada 
                          no espelho d'água. 

Nem o júbilo em Piero Della Francesca 
traz a paz repousada 
no dorso do guepardo fitando a presa 
                                              ao longe 
: meus olhos para o vertical 
  procurando no azul ozônico 
                    resposta imediata. 
                              Impossível. 

A colisão de sentimentos mascara 
o Tudo-tem-sua-hora na pupila dilatada
o Sentir é um ato raro a esmo em disparo, 
mais nada.



Eu deixaria meu corpo à mercê dos prazeres

Eu deixaria meu corpo
à mercê dos prazeres...

Deixaria o desgaste possuir
minha pele
                   , ossos
                               & sexo.

Minha urgência exige corpo.
Exige “dar-se”
, ser possuído pelo fluido do instante
, pelo diáfano amanhecer das ilusões.

Eu deixaria meu corpo
à mercê dos prazeres...

Deixaria o silêncio solene das horas
invadir meus poros
e habitar a mais longínqua
sensação escondida
no âmago da carne.

Deixaria a tempestade dos teus olhos
devastar a superfície do meu gesto
e acrescentar astros ao meu gozo.

Os incuráveis
, tanto quanto eu
, sabem
da mais-que-necessidade da urgência
: antes que a chuva acabe
, o desespero da tarde arde
na face etérea da decadência.

Eu deixaria meu corpo
à mercê dos prazeres...

... Morreria palidamente
na outonal algazarra 
dos entediantes afazeres...



Quem vai saber o quão é doloroso alimentar os demônios no quintal da insônia...

Quem vai saber o quão é doloroso
alimentar os demônios no quintal da insônia...

A dormida repleta de osgas frias
me expulsa para o mundo espúrio dos afagos
: arranhões nas costas
, beliscões no escroto
, lambidas violentas no períneo
, mordidinhas irônicas na glande...

Quem vai saber o quão é doloroso
alimentar os demônios no quintal da insônia...

Nenhuma paz
é tão gloriosa & cheia de fúria
como o silêncio eterno
das estátuas das praças...

Nenhuma paz
é tão irritante & putrescível
como o olhar movediço da velhice
frente ao espelho trincado do asilo...

Quem vai saber o quão é doloroso
alimentar os demônios no quintal da insônia...

Essa penumbra cintila Impossíveis
(o que me assombra não são os escombros)
: meus ombros já não suportam
o peso descomunal dos anjos caídos.

Adormeço
                  hesito
                             cresço
                    grito
         desço...

Necessito da noite sem lua
para poder contar as estrelas escondidas
na imensidão obscura e arredia da madrugada
para poder resistir ao poder da tua voz fria
, das pontas de cigarro nos pulsos e mamilos
, dos beijos asquerosos sem sentido...

Quem vai saber o quão é doloroso
alimentar os demônios no quintal da insônia...

Enquanto
os inocentes caminham
sobre abissais pegadas
e não enxergam os rastros
que o tempo presente revela
, compartilho com os suicidas
a desrazão dos fatos repetitivos na selva dos aflitos...

Quem vai saber o quão é doloroso
alimentar os demônios no quintal da insônia...

No fundo, no fundo
restam Silêncios & Estigmas.



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O poeta Francisco Gomes



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 




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Comentários

  1. poesia maravilhosa. Como admiradora de poesia que sou, fico feliz de "descobrir" a tocante poesia do Francisco.

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