O conto 'Milagre ordinário' de Adriano B. Espíndola Santos

Milagre ordinário


O aperto no coração e a sensação de torpor inclemente roíam, desde o cerne, o corpo de Genilda. Nas ruas, quando raramente saía, era tida como doida, suja; jogavam-lhe tomates e o que encontrassem ao alcance das mãos. Em casa, suportava a desgraça e o degredo dos tidos como inválidos.

Vem ao caso, e a propósito, o abandono do pai, que, logo cedo, resolveu se amancebar com uma sobrinha e, por isso, para evitar que agourassem seus planos, sumiu para outras bandas, certamente além das vistas, porque deles não se tinha notícia alguma. A mãe, Lucinda, desaprumada pela rasteira, com a queda e o choque no lombo, resolveu descontar na filha, na única filha – por achar que, sendo a cara do pai, vendo a figura horrenda todo santo dia, estava mancomunada com o cão. Entregou-se, grande o desgosto alegado, à cachaça. Mané, o dono da bodega, antes apaixonado e enjeitado por Lucinda, agora via a oportunidade de se achegar, dando-lhe o sumo com uma mão, para receber, com a outra, o pago e o gozo.  

Genilda, então, sofreu abandono duplo, assédio moral e o escambau, estando restrita ao sítio que deveria ser um quarto – transformado num calabouço; no sentido de calá-la, ou amofiná-la, para o resto do mundo.

Dominou-lhe, em dado momento, o intento visceral de tocar a luz que, todas as manhãs, resvalava em seu rosto, como um beijo roubado, do qual, por ser raro e potente, nunca poderia ser esquecido. O sol, portanto, era o guia e o maior dos companheiros naquele quarto fétido, ocupado por ela e mais uma boa quantidade de baratas, formigas e microbichos de toda espécie.

Pelo quadro desenhado, é possível açodar algum enjoo, de verter biles e cóleras pelo chão batido; mas em Genilda não brotava essa sensação, que era, em sua carcaça, descurada pelo convívio amoroso com os animais – inclusive com os ditos objetos inanimados, uma pequena mesa com cadeira, um relógio há muito desregulado, um colchão e as distintas paredes, todas completas de fungos espessos, como uma camada a mais de pele.  

Havia, é preciso pontuar, duas pequenas janelas, qual se perfaz em prisões de submundo. A grande, que antes existia, sendo de madeira de lei, fora retirada como forma de pagamento a Mané, que, além dos préstimos corporais, reclamava algum vintém, “para dividir as altas despesas”. Ainda, assumia a postura de dono da casa, sem, contudo, se inteirar dos cuidados, como alardeava aos quatro cantos: “Aquelas ali são um encosto que apareceu na minha vida. Mas, fazer o quê, deixar esse povo se lascar? Não. Sou homem para segurar as pontas”.


Genilda, leve e intuitiva, entregava-se à magia do encanto com os demais seres que surgiam em seu claustro forçado. Não lhe saía da memória o dia em que Rabicó, um bem-te-vi de calça curta, apareceu, desconfiado, para arranjar algum alimento. Quis ser objetivo na caça; dava ares de ignorar a sua presença. Mas foi seduzido a ficar mais que o devido e, supostamente, achava – porque não se pode extrair com precisão os pensamentos de um passarinho – que teria encontrado o tesouro, um abundante criatório, suficiente de insetos e vermes para oferecer aos seus congêneres. O bem-te-vi estava propriamente feliz por não ser incomodado e por vislumbrar a fartura naqueles dias cansados e difíceis. Genilda oferecia-lhe seu alimento, um monte de grãos que guardava para os momentos de aperto. A simbiose foi tamanha e correta que o pequeno voltava, não para comer os bichos – cada qual nominado por ela –, mas para se fartar dos grãos; de cobertor e sossego.

Basta dizer que Genilda lutava contra qualquer admoestação. Se sua mãe entrasse em seu lugar querido, vez ou outra para passar o pano no chão e jogar água sanitária pelas frestas, ela fazia um escândalo, dando a entender que o ataque de nervos poderia ser fatal – para ambas. Porém, é sabido, Genilda não faria mal a uma de suas formiguinhas, ou a uma mosca vacilante que parasse ali por engano, quanto mais à sua genitora. De modo que Lucinda prometia interná-la e liberar o quarto para alugar aos eventuais viajantes; que Genilda era um entulho, junto com aquilo tudo; que, por fim, ninguém sentiria sua falta.


Nesse ínterim, o bucho de Genilda crescia. Parecia que comia feito uma vaca, quando, na verdade, era alimentada por migalhas; a não ser quando Mané dava as caras para largar uns tantos pagos de grãos e frutas, principalmente banana e melancia, porque estas não traziam grandes prejuízos à sua banca.

Fato é que Mané vinha propositadamente, tendo o poder de guardar as chaves da cela. Enquanto Lucinda limpava a bodega, ou lavava alguma roupa no riacho, soltava Genilda “para pegar um ar”, que, por seu turno, não queria conversa, a não ser que ganhasse chocolate, o qual era jogado em pedaços pelo chão, formando rastros que a levavam ao banheiro, onde lhe aplicava uma ducha e, presa em cordas feito rês, com panos na boca, era escorada na parede para a “prestação de contas”. Mané lavava seu corpo e dizia que era para o seu bem; que, se não fosse assim, acabaria infectando tudo e morta pela imundície. Genilda não tinha medo de morrer; o medo estava em entregar aquele espaço à mãe, ou ao conjeturado padrasto, e perder o convívio com os bichos de estimação. Mané alcançava e prometia segurar as pontas, uma espécie de cessar-fogo, se ela se comportasse direitinho, seguindo a sua cartilha.


   Na madrugada de uma sexta-feira qualquer, depois de horas sufocadas em dor, sem poder soltar um berro, deu à luz um ser miúdo, de olhos e cabeça grandes. Não intuía o que estava acontecendo. No desespero, pensou em se desfazer, jogar pela abertura na parede e liberá-lo para viver; mesmo sendo pouco, não cabia ali. Mas, no ato, tomou-lhe uma profunda comoção quando o pequeno chorou pela primeira vez. Pôs nos braços o rebento, a fim de conter o choro, e assim sucedeu: naturalmente, pegou um bico que escapava da camiseta de político, surrada. Agarrou-se como se fosse a única coisa na vida que interessasse, como de fato era. Dormiram, cansados da jornada.

Pela manhã, percebeu o reboliço na casa. Não tinha a movimentação habitual. Lucinda contatara Mané para dizer que Genilda estava possuída, que, à noite, teria ouvido o som do demônio e, por isso, não lhe socorreu a bendita coragem para, ao menos, se bulir na cama.

Os dois entraram, de mãos dadas, e o clamor se fez. A imagem insólita, e ao mesmo tempo bonita, provocou uma resposta uníssona: “Um milagre!”. Assim, “sem recurso”, Genilda foi agravada à constrição total, “para esse povo alucinado não ficar na porta, pedindo bênção, esperando milagre!”.
Pelo que se sabe, de causos que atravessam gerações, Genilda assistiu ao fim doloroso de Mané, atacado por um câncer severo na boca, e da mãe, imersa em doses cavalares de cachaça, correndo e corroendo-se desvairada pelas ruas de Nossa Senhora dos Aflitos.



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"Construindo o ninho" I aquarela 29,7 x 21 cm.I Igino Rotta 








Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Acrobata, Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Poesia Avulsa, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.


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Comentários

  1. Respostas
    1. É isso também que me atravessou, Virginia. Obrigado pela visita, amiga! Ainda estou aguardando um dos seus contos pra publicar aqui! Bj

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  2. Li e reli! Era para eu sentir revolta com o estupro, encarceramento, abandono e a redução da condição humana ao qual a Genilda foi submetida, mas a forma como o autor sensivelmente construiu a narrativa, me desviou para o sentimento poético que a personagem criou com o pássaro, os vermes e o bebê....surpreendente! Parabéns!

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    1. Sim, Edi, é isso que torna o conto tão bem construído. Obrigado pela visita!

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