Resenha: Coração Cansado de Michaela v. Schmaedel



Por André Merez



O Coração Cansado de Michaela v. Schmaedel só pode ser experimentado adequadamente se a leitura puder ser feita ‘pelas rachaduras, por onde a luz entra’ como escreveu Leonard Cohen em sua canção ‘Anthem’. E esse talvez seja o ritmo correto para uma leitura realmente reveladora desse livro de estréia dessa ‘jornalista com tendências poéticas’, para utilizar palavras da própria autora. Contudo, engana-se quem acredite nessa autodefinição. Fora da superfície dos mais de cinquenta poemas que compõem a obra, deixando-se esgueirar pelas frestas, o que se pode ver é uma poética do encontro de si mesmo que parece nascer do embate com os afetos todos que se espalham pela vida.

O que provoca o encontro (e também o desencontro) do eu-lírico consigo mesmo e com o outro parece ter a mesma natureza da definição de Nietzsche quando afirma que “A vontade de superar um afeto não é, em última análise, senão vontade de um outro ou de vários outros afetos”, e então eles se entrecruzam, se desprendem e se enlaçam num movimento de gangorra que ora está no alto e ora desce como quem aprende com a descida. Essa é organização dos poemas na composição da estrutura do livro, assim como se apresenta ao leitor, assim como exatamente são as relações afetivas de qualquer natureza na esteira do tempo.

Quem buscar em Coração Cansado um livro de poemas de amor sairá frustrado de sua leitura, já que não é essa sua epígrafe. Quando este aparece o faz quase como a sombra ou o resto de um acorde ao final de uma canção de Dylan. A poética de Michaela parece perseguir suas ressonâncias no que sobra do amor, como uma forma de aprender o que existe depois de sua experiência. É um aprendizado do que é possível ser depois de ter experimentado sua destruição: “tudo fugiu muito rápido / só ficaram as palavras”. E é com as palavras que sobraram que uma reconstrução se inicia verso a verso.

E ampliando a natureza dos afetos que se entrecruzam chegamos aos afetos criados pela relação da autora com seus pares na poesia. O poema “Hospital” dedicado à Angélica Freitas, por exemplo, não pode ser entendido como mera dedicatória, mas como um diálogo entre poéticas, uma intimidade entre escrituras e, portanto, um outro trânsito de afetividades. As referências a Pavese, Bartolomeu Campos de Queirós, Francisco Alvim, entre outros, colocam este primeiro livro de Michaela na direção das intertextualidades que só podem ocorrer no campo das afeições e das identificações resultantes do reconhecimento do ‘idem animarum’.

O cotidiano visto como matéria de poesia é recorrente em tradições diversas e em diversos momentos da história da literatura. Desde as cantigas de amigo do Trovadorismo, passando pela busca de um certo prosaísmo cultivada pelos modernistas, falar do que está ao redor é uma forma de exercitar um olhar sobre o mundo, inventar uma forma de ver o já visto com outros olhos, os olhos da fruição poética. Em poemas como os “ON” e “OFF”, “Classificados”, “À mesa” e o belíssimo “Minimalismo” Schmaedel oferece ao leitor um cotidiano atravessado pela poesia, uma poética das coisas simples, uma simplicidade que investiga o que há nas coisas para além do que elas aparentemente são.

Sobre uma certa voz que se anuncia em Coração Cansado e na maneira como essa voz busca sua identidade, é possível perceber uma liberdade que se recusa a submeter-se à feição de uma poesia, esta ou aquela, que esteja comprometida com uma escola da atualidade. E a novidade que se percebe nessa seleção de poemas talvez esteja muito mais na despreocupação em perseguir uma escrita poética presa ao momento de sua publicação. O livro se apresenta como que à parte de qualquer intenção de estar incluído, e portanto limitado, a um cânone do agora. É uma voz poética que se constrói com os tijolos dos afetos e com o cimento da espontaneidade, mas que não quer levantar muros ou erigir torres, parece querer, antes, ser percebida pelas frestas.










Título: Coração Cansado
Autora: Michaela v. Schamaedel
Editora: Penalux / adquira este livro
Páginas: 125
Ano: 2020       


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