André Caramuru Aubert: 'A essência das coisas' e outros poemas

Bacharel e mestre em História pela USP, é colaborador do jornal Rascunho, para o qual seleciona e traduz, todos os meses, os poemas de algum poeta estrangeiro. Tem publicados três livros de poemas: Outubro / Dezembro, As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros e Se / o que eu vi, todos pela Editora Patuá; e cinco romances, entre os quais A cultura dos Sambaquis, pela Descaminhos, e Poesia Chinesa, pela SESI-SP editora. Traduziu diversas obras, entre as quais o livro Areias Movediças, de Octavio Paz. Atualmente trabalha em seu novo romance, Estevão, além de coordenar as edições brasileiras do inventor dos quadrinhos, Rodolphe Töpffer, dos quais os cinco primeiros, Monsieur Jabot (1833), História de Monsieur Cryptogame (1845), Monsieur Trictrac (1830), Monsieur Vieux Bois (1837) e Monsieur Crépin (1837) já saíram pela SESI-SP editora.





o som do latido dos cães, à noite
depois de “Eidolon”, de Robert Penn Warren

tarde da noite, quase madrugada, e, ao
longe, alguns cães latem, eles ladram sem parar

é tarde da noite, quase, talvez, madrugada, não: é certo que a aurora
está próxima, lá fora

é noite de lua cheia, a rua está clara, como a rua de comala, a aldeia fantasma
de pedro páramo, eu penso. e percebo que

pensar em pedro páramo não me conforta. tenho
muitas preocupações. saio do quarto, desço à cozinha, tomo um copo d’água,
vou ao banheiro, faço xixi. evito me olhar no espelho, sei

que não iria gostar da imagem que está lá, imagem de um velho,
um velho que não sou eu. e
o ar, do lado de fora, parado. não venta. os cães seguem latindo.
malditos cães, eu penso.

madrugada, quase aurora. eu me sento numa poltrona da sala. eu espero.





segunda-feira

segunda-feira de chuva, chuva, chuva. e
eu nem precisaria dizer, é óbvio: o céu está cinzento e as árvores, verde/
escurecidas, com as folhas pesadas. é o dia inteiro esse barulhinho
dos pingos, da água que escorre do telhado, vez por outra
o chiado da borracha dos pneus deslizando sobre o asfalto molhado.

[pensando em você, me pergunto se você já ouviu bailarina, do
egberto, tocada com o jan garbarek,que ouço agora, enquanto escrevo, e
se você iria gostar, se ouvisse]

já são cinco e vinte da tarde. desde cedo, o dia inteiro assim,
chovendo. o dia inteiro,
o dia inteiro.
(poema inédito, março 2019)





tempo

no jardim interno da casa de interior,
repleto de folhagens coloridas
minha avó sentada, na cadeira de vime
tomando sol; um sol tépido de outono, 
vestida com uma camisola de flanela quadriculada,
vermelha, branca e amarela, ela
tem os óculos de leitura dependurados por uma correntinha e
com uma das mãos segura um pedaço do jornal do dia, que não lê, e
com a outra tenta segurar o tempo, que escorre
entre seus dedos, mas não consegue.





domingo

enjaulado nesta sala, neste apartamento
neste domingo ensolarado de céu muito azul
eu olho o tempo passar
sem ter o que fazer, para quem ligar
pego uma cerveja na geladeira e
lá fora, longe, uma motocicleta ruge, quebrando o silêncio
eu vou até a janela
e olho.





a essência das coisas
depois de “O estilo implícito, de Sikong Tu (837-908)

a essência das coisas, de tudo,
sentida, sem que uma única frase
fosse pronunciada. a infinita tristeza,
compartilhada, sem que qualquer som
fosse emitido. no espaço aberto, no
infinito do tempo, poeira, apenas. e 
a intensidade dos seus olhos, do seu
olhar.





de como eu serei lembrado
Depois de “How you know me”, de Franz Wright

no sétimo dia do mês de maio, do
meu quinquagésimo quarto ano de vida,
logo cedo, o sol ainda meio escondido
em meio à bruma da manhã, eu tive uma
visão. garanto a você que foi forte e marcante,
mas não consigo descrevê-la. não posso. eis o que farei:
acenderei uma vela – mesmo não sendo religioso – 
para meu pai e para alguns outros parentes
e amigos que já se foram, e rezarei.

ah, as estradas sinuosas, aquelas noites, a
brasília branca, apagar os faróis para viajar
sob a luz da lua, bob marley cantando
no toca-fitas, johny walker (rótulo vermelho) no
gargalo, passado de mão em mão.
(de as cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros, ed. Patuá, 2016)





viver

“I don’t want to die, me! I want to stop
alive for ever, if only to see the ships pass.”

G. B. Edwards, The Book of Ebenezer Le Page

nem que seja só para me sentar na
areia da praia e olhar, lá longe, os
navios passarem. e sentir, ao meu
lado, a respiração de uma garota
de cabelos castanhos (supondo o
brilho dos olhos dela olhando o mar).
viver nem que seja só para, quando a
noite cair e trouxer com ela o frio,
olhar a lenha queimando no fogo. e
ora a garota de cabelos castanhos, ora
eu, vez por outra ajeitar a lenha
e alimentar o fogo. enquanto falamos
dos navios que, de dia, passaram
diante dos nossos olhos.





poema

noite fria de domingo, lareira
acesa, leio e traduzo ao mesmo tempo
um poema de kenneth rexroth: “nós deitados,
juntos, ouvindo / a respiração, um do outro,
sob o luar / você ouve? nós respiramos.
estamos vivos.” por que será que, às vezes,
as páginas de um livre (mesmo as muito tristes)
parecem mais bonitas do que as da
nossa própria vida?





o mar

eu me sento na areia e olho o mar. só
isso. depois de meses longe (longe
de casa), eu me sento e olho o mar.
não abro um livro, não converso. eu
mal penso. eu olho o mar. só isso.





expressionismo abstrato III
Depois de John Milton e Robinson Jeffers

não sei se vi ou sonhei que vi
mas o que vi ou sonhei que vi era tão
tão bonito. vi todas as cores, todos os tons, as nuvens, o
horizonte; o sol e as estrelas, as copas das árvores, as árvores
e a vegetação rasteira; vi homens, mulheres
e animais. vi pedras e rios,
vi o mar. até o vento eu vi, não sei se vi ou sonhei que vi.





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André Caramuru Aubert



A Revista POESIA AVULSA é editada e organizada pelo poeta André Merez 




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